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Algumas vivências de pessoas trans e a desconstrução cotidiana de preconceitos

Algumas vivências de pessoas trans e a desconstrução cotidiana de preconceitos

Primeiramente, deixo claro que uma pessoa transgênero não vive de forma distinta de uma pessoa cisgênero. Pessoas trans passeiam, namoram, brincam, estudam, trabalham, sofrem, sorriem, assim como as pessoas cis fazem. Mas, em muitos casos há um diferencial enorme. O medo, a dificuldade e a exclusão, por exemplo. Vivemos em uma sociedade que quer ditar tudo por nós. Quando nascemos dizem quem somos, quando estamos crescendo dizem o que devemos ser e temos que sempre seguir os padrões estabelecidos por ela. E eles tentam esconder, mascarar tudo aquilo que foge dos seus padrões, como tentaram fazer com a homossexualidade, e não deu certo (óbvio). Se eu soubesse desde cedo o que era uma pessoa trans, teria assumido minha identidade desde pequeno. 

Aos 14 anos me apaixonei pela primeira vez por uma garota, e mesmo fazendo parte do público LGBT, eu não fazia ideia de que as pessoas transexuais existiam. Somente aos 23 anos eu descobri que homens trans existiam, porque até então, eu só conhecia as mulheres travestis. Muitas pessoas trans, quando revelam sua real identidade para pessoas que já lhe conheciam, a primeira pergunta é: ”Você tem certeza?” Eu acredito que quando uma pessoa chega e assume sua transexualidade, ela não acordou simplesmente em um belo dia dizendo/pensando: “Nossa, hoje o dia está tão lindo que eu vou ser trans!” Não! Não é fácil ser transgênero. Nossa luta é diária, nossa luta é constante, e na sociedade em que vivemos ainda somos muito apedrejados. Eu sou homem trans, e quando li sobre o assunto eu simplesmente me enquadrei em tudo que eu estava lendo. Eu não me encaixava no padrão que a sociedade queria que eu me encaixasse. Eu aprendi a viver como uma mulher, mas nunca fui uma. Quando assumi minha transexualidade eu tinha certeza de quem eu era. Agora sim, eu tinha certeza absoluta de quem eu era. No começo da transição, ouvimos muitas coisas estúpidas, como: “Ah, você era tão lindx!” Ué, a beleza não foi perdida. E “Se queria ser homem por que continua ficando com homem?” / “Se queria ser mulher por que continua ficando com mulher?” Vamos esclarecer uma coisa aqui, sexualidade ou orientação sexual, como queira chamar, e identidade de gênero são coisas completamente distintas. Explicando de forma rápida e esclarecedora, sexualidade/orientação sexual está ligada ao desejo, ao relacionamento amoroso, por quem a gente se apaixona. Identidade de gênero é como eu me sinto, quem eu sou de verdade. Sendo assim, um homem trans que namora homens (seja cis ou trans) ele é gay ou bissexual. Se ele namora mulheres não é lésbica, mas sim heterossexual ou bissexual. O mesmo vale para uma mulher trans ou travesti, se ela namora mulheres (seja cis ou trans) ela é lésbica ou bissexual. Se ela namora homens, não é gay, mas sim heterossexual ou bissexual. 

Início da transição

Uma das primeiras coisas que eu pensei no início da minha transição foi como as pessoas iriam me ver, se me respeitariam e como explicaria tudo pra pessoa que eu fosse namorar, se seria aceito com tranquilidade ou não. Sei que esses ou alguns desses, são medos, receios de toda pessoa trans. Na minha família, com as pessoas que eu realmente tenho aproximação eu não tive nenhum problema. Há aqueles que não acham certo, por questões religiosas (que não deixa de ser preconceito), mas me tratam bem da mesma forma. Minha avó, por exemplo, ainda me chama pelo nome de registro, mas continua me amando e me tratando igualmente. Algumas pessoas se afastaram, isso me doeu, mas não deixei que atrapalhasse minha vida. Mas, na maioria dos casos não é tão simples assim. 

Dia após dia irmãos e irmãs de luta são agredidxs, física e psicologicamente. Inclusive dentro de casa, onde deveria ser seu porto seguro. Algumas pessoas largam os estudos por não aguentarem tamanha violência na escola e sem ter o apoio dentro de casa se torna ainda mais difícil de suportar. Um/uma adolescente negrx, por exemplo, chega em casa e conta que está sofrendo preconceito em sala pela cor de sua pele. Sua família vai lhe confortar e tentar tomar as medidas cabíveis. Mas, um/uma adolescente trans que já sofre o preconceito dentro de casa, vai chegar e conversar com quem? Onde conseguirá apoio? O mercado de trabalho é outro ponto difícil. A maioria das pessoas trans não trabalham de carteira assinada e uma parte, bastante significativa, são profissionais do sexo (sendo a maioria por questão de sobrevivência). Alguns que já trabalham, quando começam a transição são demitidos, com justificativa de corte na empresa, mas sabemos exatamente do que se trata. O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais e isso é tão contraditório quando vemos que o índice de vídeos pornôs mais acessados são com travestis e transexuais. O medo está constantemente presente, principalmente para as mulheres trans e travestis. E vou deixar claro meu ponto de vista sobre isso. Um homem trans antes de se hormonizar, ele é tido pela sociedade como uma mulher lésbica e hoje ser homossexual é mais aceito. Depois da hormonização ele parece com um homem cis, então quem não o conheceu antes, nunca vai adivinhar que ele já teve aparência feminina. Talvez por esse mesmo motivo a transmasculinidade seja tão oculta pra muitas pessoas. Diferente das mulheres trans e travestis, que mesmo depois da transição e hormonização, a maioria delas conseguimos identificar que teve aparência masculina. Por esse motivo, ao meu ver, as mulheres trans e travestis sofrem mais em nossa sociedade que os homens trans. Mas, a gente se preocupa, temos nossos medos. Muitos de nós que usamos camisas regatas temos receio quando saímos com uma, porque mostra o binder (elástico para comprimir os seios) e se uma pessoa transfóbica nos identificar como homem trans, pode querer nos agredir física ou psicologicamente. Em relacionamento amoroso, eu tive sorte de conhecer alguém que me aceitou como eu sou. Conheci minha esposa no começo da minha hormonização, e no primeiro dia ela teimava em me tratar no feminino (por ignorância do assunto), mas no segundo dia me tratou de forma correta e só aí a gente começou a se conhecer melhor. Mas nem sempre o resultado é positivo. 

Atualmente :)

Quem já namora ou é casadx, ao assumir sua identidade pode acabar se separando. Quem está conhecendo alguém, ao assumir ser transgênero, a pessoa pode cair fora. E tudo isso é muito doloroso, pois somos seres humanos também. Uma questão que eu acredito que toda pessoa trans teve (ou ainda tem) problemas é com a questão do uso do banheiro e o respeito ao nome social. No começo eu ia no banheiro feminino, ficava completamente sem graça. Depois que eu soube que não havia Lei que me proibisse de usar o banheiro masculino, passei a fazer uso dele, mas não em todos os lugares, pois tinha medo de sofrer transfobia. Quando ninguém mais me confundia com uma mulher, foi que passei a usar só o banheiro masculino. Todas as pessoas trans sofreram e muitas ainda sofrem com isso e o maior medo, acredito eu, seja de sofrer violência sexual. Em relação ao nome social e ao tratamento adequado, é normal que as pessoas que já te conheciam troquem o pronome e o seu nome no inicio da transição. O que não é normal e não devemos aceitar são aquelas pessoas que fazem propositalmente (e a gente sabe quando isso ocorre), e aquelas pessoas que te conheceram depois da transição, você se apresenta no masculino ou feminino e a pessoa insiste em te tratar de forma oposta por saber que você é trans. 

Pra finalizar, deixo aqui meu pedido de coração: Trate as pessoas trans com respeito. Nos chamem pelo nome que escolhemos. Nos trate pelo pronome que pedimos. Nós só queremos viver sem medo e ter o respeito que é nosso por direito.


Algumas vivências de pessoas trans e a desconstrução cotidiana de preconceitos Algumas vivências de pessoas trans e a desconstrução cotidiana de preconceitos Reviewed by Fala Berenice on 14:07:00 Rating: 5
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