Entrevista com o político Edmar Luz que quer acabar com "a pregação religiosa nos ônibus"

Entrevista com o político Edmar Luz que quer acabar com "a pregação religiosa nos ônibus"

O ‘De Frente com Berenice’ bate um papo com o candidato a vereador da cidade de São Paulo pelo PPS, Edmar Luz, que tem como proposta, multar as empresas que permitem pregação religiosa nos ônibus em defesa do estado laico e das liberdades e garantias individuais. Edmar falou sobre a polêmica envolvendo a proposta, o papel da igreja na sociedade, e o seu ponto de vista sobre a política atual.


1. Qual o seu ponto de vista sobre a política atual, após a saída da Presidenta Dilma?

Mais do que em transição, o Brasil está em transe. Há um clima de desalento, de falta de confiança na política, de falta de perspectivas. As pessoas precisam de projetos para suas vidas, precisam ter sonhos pelos quais lutar. Esses políticos que estão aí tiraram algo muito importante dos brasileiros, que é a esperança. Por outro lado, o descrédito total na classe política tem um efeito educador. Não se pode apenas crer, é preciso conhecer, avaliar, discutir, ponderar e depois decidir. Os brasileiros sempre foram muito de acreditar em “promessas eleitorais”, de dar crédito fácil aos populistas e, hoje, amargam as consequências dessa despolitização. Pode ser que, agora, mais céticos, inauguremos uma nova fase na política brasileira.

2. O povo brasileiro sabe votar?

Cada um vota de acordo com as suas experiências, conhecimento, concepção política e expectativas. O eleitor tem todo o direito de experimentar, votando do que jeito que lhe convier, afinal o voto é dele. Já o eleito, não. A partir do momento em que é escolhido numa votação tem regras e compromissos a cumprir. 

3. Sua proposta de multar as empresas que permitem pregação religiosa nos ônibus se tornou bem polêmica devido à insatisfação de alguns religiosos. Você costuma ler os comentários na sua página? O que diria para essas pessoas que acreditam que sua intenção é "parar" a obra de Deus?

As empresas de ônibus são concessionárias de um serviço público e, portanto, têm a obrigação de manter o ambiente nos coletivos o mais saudável possível. Devem cuidar da limpeza e manutenção dos ônibus, cumprir com os horários e impedir desordem no interior do veículo, seja som alto, fumantes e bem como pregação religiosa. Quem paga por uma passagem tem o direito de exigir um serviço de qualidade em todos os aspectos. As gritarias dos pregadores, além de tirar o sossego dos passageiros, é uma afronta às pessoas de outras religiões ou que não tenham religião alguma. Com o agravante de que coloca em risco a segurança dos passageiros, pois estimula conflitos num ambiente fechado, podendo provocar brigas com consequências graves. Imagine se pessoas de todas as religiões resolverem fazer isso? Será o caos no transporte coletivo. Para isso existem templos, que são os locais corretos para se pregar. Ônibus municipal não é igreja nem tampouco palanque móvel para o “comércio da fé”.

Na medida do possível, busco ler a maioria dos comentários na minha página. Mas foi exagerada a reação agressiva e grosseira de alguns religiosos, ainda mais porque dizem que pregam o amor, a uma proposta relativamente simples e que, em nenhum momento, fala em “parar” a obra de um deus, porque isso, afinal, seria uma idiotice da minha parte. A minha proposta se refere apenas a uma questão pontual, a pregação religiosa nos ônibus, o que incomoda bastante os passageiros que pagam uma passagem muito cara por esse serviço.

4. Como surgiu a ideia da proposta?

Tenho recebido vídeos de brigas em ônibus por causa dessas pregações religiosas e já publiquei alguns deles. Pesquisei a respeito e percebi que este é um problema que existe e vem aumentando, não só na cidade de São Paulo, mas em quase todo o Brasil, com aumento das intimidações e brigas, colocando em risco a segurança das pessoas. Ocorre também nos trens e, no Rio de Janeiro, a Justiça acabou proibindo essas pregações devido às inúmeras reclamações dos usuários. O meu objetivo é alertar para essa situação, visando o bem-estar e a segurança dos passageiros. É inadmissível em um Estado laico que serviços públicos sejam transformados em palanques para proselitismo religioso, daí a importância de uma medida para pôr freio a esses abusos. A liberdade religiosa, consagrada pela nossa Constituição, não pode servir a interesses mercantilistas da fé nem tampouco se constituir em passe livre para a intolerância e afronta à ordem pública. 

5. Por que para muitas pessoas ela não parece ser importante?

Apesar de ser laico, o desprezo pela laicidade do Estado é uma constante no Brasil, um país de maioria cristã que considera comum desrespeitar as minorias. Mas ficou claro que a medida desagradou basicamente a alguns pequenos grupos de evangélicos neopentecostais. Espíritas, umbandistas, ateus, budistas, católicos, pessoas sem religião e até um grande número de evangélicos conscientes aplaudiram a ideia. Como sempre, os fanáticos gritam mais e por isso aparecem mais. O bom senso, porém, há de prevalecer.

6. Já presenciou uma pregação dentro de um ônibus? 

Já passei por uma situação dessa. Estava ao lado de uma senhora e quando ela iniciou a fala eu a interrompi educadamente perguntando de qual igreja ela era. Em seguida, emendei perguntando o bairro e o nome dela. As perguntas a fizeram calar por um momento e então aproveitei para falar a ela e às demais pessoas à sua volta que a pregação não era permitida no ônibus. A mulher baixou um pouco o tom de voz, mas aos poucos começou a resmungar dizendo que estava a serviço de seu deus. Estrategicamente, foi buscando convencer passageiros, formando aliados, mas sem se dirigir diretamente a mim. Quando chegava ao meu destino e dei o sinal para descer, ela começou a gritar e, só foi eu descer do ônibus, correu à janela e me xingou, bradando com a Bíblia na mão: “Demônio, vai embora Satanás! ”.


7. Igreja virou comércio?

Eu espero que não, pois existem igrejas que atuam de maneira correta e algumas delas desenvolvem atividades sociais importantes para diversas comunidades. O que observo e condeno é o comércio da fé no rádio e na TV. Essas emissoras, que são concessões públicas exploradas mediante contratos, se transformaram em “camelódromos da fé”, onde se vende todo tipo de quinquilharia “ungida”, num flagrante desrespeito à Lei de Telecomunicações e à Lei de Licitações, sem que a Justiça e o governo federal tomem alguma providência. Enquanto isso, pessoas humildes e sem instrução, são vítimas da ganância de alguns tele-pastores.

8. Por que é tão importante que o país seja laico na prática?

Estado laico é liberdade e civilidade. Liberdade para quem tem crença expressar sua religiosidade sem nenhum cerceamento, dentro dos parâmetros da civilidade, e liberdade também para quem não tenha crença alguma, como os ateus. Onde não há laicidade, não há igualdade, principalmente para as mulheres, que perdem seus direitos básicos, como ocorre em algumas teocracias pelo mundo. Por isso é importante que eliminemos das leis, das repartições públicas, das concessões públicas e da educação, qualquer elemento que venha privilegiar uma determinada religião. No momento em que o Estado permite que uma religião se sobreponha às demais ou aos ateus, está colocando em risco o equilíbrio que devemos sempre preservar no Estado laico. Para mim, “feliz é a nação cujo Estado é laico”.


9. O que podemos esperar de Edmar Luz na política?

Humildade, simplicidade e foco em projetos que os políticos tradicionais não tem interesse em abordar. Sou jornalista e sempre atuei na política de forma crítica. Tenho verdadeiro horror ao populismo, aos conchavos visando interesses de grupos e à arrogância típica dos caciques brasileiros que tratam os eleitores como fantoches dos seus projetos pessoais. Há um desrespeito muito grandes dos políticos tradicionais para com os eleitores. E há em curso uma estratégia de destruição da educação, a ser substituída por doutrinação. O ensino é destruído e o culto enaltecido. Faltam escolas e sobram igrejas, principalmente nas regiões mais pobres. Os caciques da política e os caciques da fé estão unidos nesse projeto de alienação, com o objetivo de se manterem no poder, explorando a população. Precisamos nos contrapor a isso, para que haja futuro para as novas gerações. É essa luz que pretendo acender.


10. Se pudesse ser Presidente por um dia, o que faria?

Um dia seria muito pouco para colocar em prática algumas ideias minhas, mas serviria, pelo menos, para lançá-las ao debate pela sociedade. Ei-las:

- Acabaria com o dinheiro em papel, como forma de combater a corrupção. Haveria apenas moedas para compras pequenas. Todas as transações seriam feitas com cartões virtuais e cartões vinculados ao sistema bancário.

- Reduziria o número de ministérios para apenas 11 e acabaria com 50% dos cargos políticos. A economia gerada com essa medida seria aplicada integralmente na educação, inclusive, dobrando o valor do atual piso nacional dos professores.

- Criaria um programa nacional para gerar 20 milhões de empregos, em três frentes: a) obras de duplicação de todas as rodovias federais e estaduais, todas elas passando a ter rede de fibra ótica; b) mutirão nacional para construção de novas escolas que teriam, além de salas de aula, serviço médico, dentista, psicólogo, nutricionista, tudo num mesmo lugar para os alunos e as famílias dos alunos; c) programa nacional para jovens empreendedores. Cada jovem que montasse uma empresa, teria incentivos para contratar três outros jovens, até a empresa deslanchar.

- Transformaria o Bolsa-Família (que é uma Bolsa Miséria) em Bolsa Salário com o valor de dois salários mínimos. As pessoas, por mais humildes que fossem, passariam a trabalhar em programas do governo federal, de acordo com as suas qualificações. Alguns em frentes de trabalho, outros em programas rurais, enfim, iriam para trabalhos com os quais se adaptassem e receberiam dois salários mínimos.

- Legalizaria o aborto, que hoje já é livre, mas só para quem tem dinheiro.

- Criaria um programa nacional de planejamento familiar, com incentivo financeiro para famílias de baixa renda terem menos filhos.

- Acabaria com os inúmeros documentos que temos hoje e cada cidadão teria apenas o CPF com chip que agregaria as demais informações e serviria para todas as operações.

- Faria um recadastramento nacional, para que o documento único nacional (CPF) tivesse biometria (digital e íris) de cada brasileiro, medida que ajudaria em muito no combate à marginalidade.

- Tornaria o Brasil um país laico de fato, acabando com toda a influência religiosa no governo, com: a) fim do ensino religioso nas escolas; b) fim do acordo com a Santa Sé, eliminando os privilégios da igreja católica; c) retirada de todos os símbolos religiosos de repartições públicas, hospitais e escolas; d) fim da imunidade tributária para as igrejas; e) fim dos programas religiosos nas concessões públicas de rádio e TV. No lugar deles, as emissoras passariam a transmitir programas educativos e culturais

- Reduziria em 30%, no mínimo, o número de deputados federais e senadores.

- Regulamentaria o casamento gay.

- Reduziria a jornada de trabalho para 36 horas semanais.